quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Quem tem medo de gente nas ruas?

Goiânia não tem tradição de carnaval de rua. Quando me mudei pra cá, há 16 anos atrás, vindo das Minas Gerais com minha família, praticamente não se ouvia falar de nada. Compareci certa vez a um dos desfiles das escolas de samba, que me parece ter sido o último antes do ostracismo que precedeu o recente retorno, no ano passado.

O retorno do carnaval de rua de Goiânia teve inicio no ano de 2006, quando o percussionista Alemão mobilizou o grupo que coordena, Coró de Pau, junto a outros grupos da cidade, como o Vida Seca, que eu participo, para realizarmos o encontro de blocos de rua durante o carnaval. Em 2007 ocupamos a Rua do Lazer e outras ruas do centro, realizando o desfile dos blocos e shows num palco montado no calçadão da citada rua.

Foram sucesso as duas edições realizadas por lá, em 2007 e 2008. Não houve registros de nenhum tipo de violência, e mesmo a PM não foi ostensiva como começou a ser a partir do ano passado. Com o retorno das escolas de samba, o carnaval passou então a ser realizado na Av. Araguaia, no trecho entre o Bosco Botafogo e o Parque Mutirama, no centro.

Mas ai é que tivemos a surpresa ao perceber que o contingente policial era muito grande, com presença da cavalaria e das tropas de choque, como a temida Rotam. Logo ali começamos a sentir saudades dos dois anos de Rua do Lazer. No entanto não nos abatemos e fomos para a folia. Ao final do primeiro dia de festa conhecemos então a equivocada e truculenta estratégia da PM goiana: dispersar o público logo ao final dos shows com um arrastão da cavalaria, truculento e agressivo, com pessoas agredidas no último dia de folia. Ali em 2009 já tivemos uma prévia do que aconteceria este ano.

Novamente estávamos lá na Av. Araguaia para apresentar o trabalho desenvolvido ao longo do ano e celebrar o carnaval. Novamente um ostensivo contingente policial. Mas agora a avenida cercada por grandes de contenção, numa tentativa totalmente oposta ao espírito do carnaval, pelo menos o cultivado pelos blocos de rua, que é o dos foliões estarem lado-a-lado com os blocos, numa simbiose que produz a verdadeira catarse carnavalesca.

Mesmo diante desses decepcionantes fatos tivemos a grandeza de nos divertir, com muita alegria, sem nenhum incidente. Ao final do show do grupo De Volta ao Samba, entra em cena a tragédia montada pela PM goiana. Uma linha de cavalaria se postou em frente ao palco, com policias a pé entre os cavalos e outros vindos pelas laterais. Começaram a avançar sobre o público, forçando uma retirada sem sentido, pois a festa havia acabado há poucos minutos, num horário inacreditável para uma folia de carnaval: 0h30. Além disso, onde está o direito de ir e vir, de ocupar os espaços públicos? O fato é que logo alguns homens da cavalaria começaram a se exaltar e manobrar agressivamente seus cavalos, spray de pimenta começou a ser disparado contra todas e todos e as cacetadas foram distribuídas sem nenhum comedimento, em mulheres e homens, em quem estivesse na frente dos ferozes policiais. Câmeras fotográficas que registravam as agressões foram roubadas e destruídas. Cinco pessoas que não fizeram nada foram presas por desacato, também de maneira brutal.
Mesmo depois de dispersarem as pessoas do trecho cercado, os policiais partiram para cima das pessoas que estavam no posto de gasolina próximo ao supermercado Tático e continuaram a agredir com cacetadas e spray pimenta.

Não nos intimidamos, apesar de agredidos brutalmente, e nos dirigimos ao 1º DP para prestar queixa e protestar pela libertação dos detidos. Nossa presença irritou os PMs que voltaram a nos ameaçar e agredir verbalmente, chegando a ponto de soltar bombas de efeito moral no pátio do DP.

Eu particularmente, depois de levar uma cacetada na cabeça da cavalaria, spray de pimenta na cara e apanhar com cacetadas de um policial a pé, ainda fui ameaçado de prisão no DP por estar “falando demais”. Outras pessoas foram ameaçadas por estarem fazendo o mesmo, usando nossas terríveis armas, as palavras. Nos jornais do dia seguinte a esdrúxula justificativa policial: alguém teria lhes alvejado com um perigoso copo plástico cheio de cerveja. Será isso um motivo razoável para agredir dezenas de pessoas? Será um copo plástico uma verdadeira agressão a alguém com colete a prova de bala? Não seria o caso então de buscar identificar a pessoa e prendê-la, isso olhando pela lógica da PM?

Enganam-se eles e o poder público reacionário de Goiânia quando pensam que vamos ficar quietos diante dessa agressão. Eles podem não acreditar no carnaval, os primeiros pela sua intrínseca brutalidade e os segundos por estarem permeados por religiosos que desprezam o carnaval, por ser uma festa pagã.

O direito de estar nas ruas seja no carnaval ou em qualquer outra ocasião não pode ser tirado do povo, mas é exatamente isso que o poder em Goiânia quer fazer: intimidar e controlar aqueles que querem ocupar espaços públicos para protestar, se divertir, ser irreverente, ser feliz. Mas não adianta, pois a brutalidade, o atraso que representam é um estímulo para aqueles que acreditam que isso está errado e deve mudar. A mobilização já começou e vai continuar e voltaremos a ocupar as ruas, no carnaval e quando for necessário para manifestarmos qualquer coisa, pois a rua não é da polícia, não é do bandido, muito menos dos políticos, a rua é da gente que gera toda a riqueza e a beleza desta terra, que sofre com a vergonha e a brutalidade impostas por todos aqueles que tem o poder instituído em suas mãos.

8 comentários:

  1. É isso ai Roquetom... vamos divulgar esse texto. E vamos levar isso adiante...

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  2. Foda isso!
    Os caras levando cultura ás ruas.
    Seguindo o conselho do Miltão: "Todo artista tem que ir aonde o povo está!"
    E acontece uma chateação dessa!
    Violência gratuita de quem não gosta de ver as pessoas felizes...
    E dizem q a ditadura acabou... enquanto ela só mudou de face.

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  3. Uma depravação aqueles senhores fardados com borracha nas costas de foliões. Bateram na cara de quem foi brincar. Degenerados vestidos de poder. Corromperam a alegria da forma mais perversa. Com violência e mentira. Mas a merda de sexta continua. Há um silêncio forçado; garantido por um porrete. Ele aponta as cabeças de quem foi louco de reclamar. Quadrúpedes sobre quadrúpedes. Aquelas botas barulhentas. Até coletes à prova de balas!!!!! E isso não começou naquele dia depois do De volta ao Samba. Conhecemos essa conversa fiada.

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  4. Olá! Não pretendo lhe tomar muito tempo. Estou divulgando meu primeiro microconto (O Aparelho Digestório). Caso você descida dar uma olhada comente. Terei prazer em retribuir sua visita. Abraço: Jefhcardoso, editor do http://jefhcardoso.blogspot.com

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  5. lastimavel
    o blog
    www.musicadaminhagente.blogspot.com, se sensibiliza com o ocorrido e postou comentario e o texto do amigo Roqueto, espero que nao se importe, está com os devidos creditos
    Abraços
    Daniel de Mello e a Música da Minha Gente

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  6. Olá acho esse blog uma farsa, pois muitas pessoas que se dizem estar divertindo na verdade excedem no uso de bebidas alcólicas e até mesmo droga estravasa e não respeita o direito do outro, e comessam a bagunçar e instalar desordem e caos na sociedade tudo em nome de uma liberdade fajuta que proclamam terem, ifringindo leis e agindo como vandalos, acredito que tem muitos desses que foram maleducados pelos seus pais, se é que foram educados, que somente a policia com braço de ferro e atitudes energicas podem conte-los e se for preciso com o uso da força, pois essa molecada de hoje não tem limites e alguem tem que lhes impor limites nem que seja atravéz de um corretivo policial, que sabe assim eles acabam sedo educacados. ass: anõnimo

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  7. Bom, me parece que o farsante aqui é você, pois não possui nem coragem de defender seu ponto de vista fascista assinando seu próprio nome. Vergonhoso.

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